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    Home»Minas Gerais»Queijo Minas Artesanal: o saber que une pingo, território e tradição
    Minas Gerais

    Queijo Minas Artesanal: o saber que une pingo, território e tradição

    By Anderson Alves de Oliveira17/10/2026Nenhum comentário6 Mins Read
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    Queijo Canastra com casca maturada sobre tábua de madeira
    Queijo Canastra sobre tábua de madeira. Foto de odumazza via Magnific.

    Na produção do Queijo Minas Artesanal, uma parte do trabalho de hoje participa do queijo de amanhã. É o pingo: o soro fermentado recolhido durante a fabricação e incorporado à produção seguinte. Nele estão microrganismos que ajudam a construir o sabor, o aroma e a textura de cada queijo.

    Esse vínculo entre um dia e outro faz parte de um conhecimento transmitido entre pessoas e gerações. Inclui reconhecer o ponto da coalhada, trabalhar a massa com as mãos, cuidar da salga e acompanhar a maturação. Foi esse conjunto de saberes, ligado às comunidades produtoras de Minas Gerais, que recebeu reconhecimento internacional.

    O que a Unesco reconheceu no queijo mineiro

    Em 4 de dezembro de 2024, durante reunião em Assunção, no Paraguai, os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal entraram na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A inscrição valoriza as práticas e os conhecimentos que mantêm essa produção viva.

    O reconhecimento não elegeu uma marca ou um queijo como o melhor do mundo. Seu objeto é cultural: o trabalho dos produtores, a transmissão do ofício e a relação entre o alimento e os territórios. Segundo a Unesco, foi o primeiro bem cultural brasileiro associado à cultura alimentar inscrito nessa lista.

    No Brasil, a trajetória de reconhecimento já vinha de antes. O registro pelo Iphan ocorreu em 2008 e foi revalidado em 2021. A candidatura internacional foi apresentada em março de 2023, dando continuidade a esse processo.

    Pingo e coalho têm funções diferentes

    Os ingredientes básicos do Queijo Minas Artesanal são leite cru, coalho, pingo e sal. O coalho atua na coagulação: ajuda a transformar o leite em uma massa que poderá ser trabalhada. Já o pingo é um fermento natural, com bactérias láticas que participam da fermentação e das características sensoriais.

    O pingo vem do soro que escorre dos queijos durante a fabricação, no período de salga e viragem. A prática mantém uma continuidade microbiológica entre produções sucessivas. Por isso, usar os mesmos ingredientes em duas queijarias não garante resultados iguais: as características do leite, do fermento, do ambiente e do trabalho de cada produtor também entram na conta.

    Em estudos divulgados em 2025, a Epamig investigou a qualidade e o armazenamento desse sorofermento a partir de demandas de produtores do Campo das Vertentes. O trabalho busca compreender como conservar um ingrediente vivo e variável, central para a identidade do queijo.

    O trabalho continua depois que a peça ganha forma

    A fabricação envolve uma sequência em que cada etapa interfere na seguinte. Depois da coagulação, o corte divide a coalhada e favorece a saída do soro. A massa é trabalhada, colocada em formas e prensada manualmente. A salga a seco participa da formação do sabor e da perda de soro.

    Reconhecer o ponto da massa depende da experiência de quem a manipula. O manual técnico da Emater-MG sobre Queijo Minas Artesanal descreve mudanças de consistência, ligação entre os grãos e facilidade de separação do soro observadas ao longo do processo. São decisões que exigem atenção à matéria-prima daquele dia.

    A maturação é outra etapa de fabricação. Nesse período, transformações físicas, químicas e microbiológicas modificam o queijo. Enzimas atuam sobre proteínas, gorduras e açúcares, contribuindo para o desenvolvimento de aroma, sabor e textura. Temperatura, umidade e características da massa influenciam o resultado.

    Assim, o tempo de cura tem significado quando vem acompanhado do modo como a peça foi produzida e maturada. Dois queijos com a mesma idade podem oferecer experiências diferentes. A expressão “mais curado”, sozinha, não descreve toda essa combinação.

    Há vários territórios por trás do Queijo Minas Artesanal

    Canastra e Serro são nomes conhecidos, mas representam apenas parte do mapa. A Secretaria de Agricultura de Minas Gerais relaciona dez regiões produtoras de QMA: Araxá, Campo das Vertentes, Canastra, Cerrado, Diamantina, Entre Serras da Piedade ao Caraça, Serra do Salitre, Serro, Triângulo Mineiro e Serras da Ibitipoca.

    Esses nomes identificam territórios que podem reunir vários municípios. O Campo das Vertentes, por exemplo, inclui São João del-Rei, Tiradentes, Carrancas e outras cidades. A região do Serro também vai além do município que lhe dá nome, abrangendo localidades como Sabinópolis e Conceição do Mato Dentro.

    Minas produz ainda outros queijos artesanais com identidades próprias. A relação oficial das regiões queijeiras distingue o QMA de produtos como o queijo de Alagoa, o Cabacinha do Vale do Jequitinhonha e o Requeijão Moreno do Vale do Mucuri. Conhecer o nome completo do produto e sua procedência ajuda a perceber essa diversidade, em vez de reunir tudo sob uma única receita mineira.

    Como a pesquisa se aproxima das famílias produtoras

    A diversidade do pingo motivou a criação do projeto “Queijoteca Artesanal”, apresentado pela Epamig em julho de 2025. A proposta é identificar e conservar microrganismos dos queijos artesanais em uma coleção microbiológica, com foco nas bactérias láticas do fermento natural.

    O projeto envolve produtores, associações e pesquisadores. A investigação procura compreender as diferenças locais e preservar esse patrimônio microbiano, além de estudar possibilidades de aplicação tecnológica.

    Uma das participantes é Joelma Tarôco, do Campo das Vertentes. Em relato publicado pela Agência Minas, ela contou que a queijaria foi projetada em 2013 para agregar valor ao leite da família. Depois de dificuldades iniciais, sua mãe assumiu a produção em 2015. Joelma passou a se envolver com o queijo, aproximou-se de outros produtores e pesquisadores e deixou o emprego anterior para se dedicar ao negócio.

    O caso mostra que transmitir um ofício também envolve reorganizar o trabalho familiar, buscar assistência técnica e encontrar caminhos de comercialização. A continuidade do queijo depende de gente que tenha condições de produzi-lo e viver dessa atividade.

    O que perguntar ao conhecer um queijo artesanal

    Em uma feira, loja ou visita a uma queijaria, vale ir além do nome da região. Saber quem produziu, em qual município, qual é o tipo de queijo e como foi conduzida sua maturação torna a conversa mais precisa. Quando possível, comparar peças do mesmo produtor em diferentes estágios de cura ajuda a perceber as mudanças de textura e aroma.

    Para levar o produto para casa, confira a identificação no rótulo e siga as orientações de conservação e validade do fabricante. Já para conhecer sua história, pergunte quem ensinou o ofício e como a família passou a produzir. São essas experiências, junto ao trabalho diário na queijaria, que dão conteúdo ao patrimônio reconhecido pela Unesco.

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